quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Cortando o mal pela raiz! (Parte 4) ⚔️🪾

 3ª Era, em 2.990 a. R.

Os tambores de couro grosso e as trombetas esculpidas em chifres de feras ancestrais soaram na entrada do acampamento de Oldek, na extremidade oposta ao limite sombrio da mata. O som grave e ancestral cortou o ar como um trovão de aviso.

Milhares de soldados, batedores e engenheiros que fivelavam armaduras, afiavam lâminas e organizavam provisões para marchar em direção à frente de batalha pararam no mesmo segundo. O burburinho da rotina militar cedeu espaço ao choque.

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ANTERIORMENTE EM HÉPHYRIS...

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No horizonte, emergindo por trás das cristas afiadas das montanhas, surgiram os primeiros pontos negros no céu. Ninguém precisou de ordens ou confirmações: o acampamento explodiu em um brado coletivo. Festividades e cantos de vitória ecoaram no meio do caos e da poeira. A massa de soldados em terra celebrava com os punhos para o alto a chegada daqueles que dominavam os céus de Héphyris.

A grande armada aproximou-se com a imponência de um império voador.

Navios encouraçados de guerra avançavam em fileiras perfeitas, divididos em diferentes níveis de altitude para cobrir os ângulos ciegos do ar. Nos intervalos dessas fortalezas flutuantes, o bater de asas escamosas fazia o chão tremer lá embaixo. Montadores alados, trajando placas de aço polido, guiavam dragões imensos que cortavam o vento com rugidos abafados.

À medida que a frota cobria a luz do sol sobre o acampamento de Oldek, o sistema quemétra mantinha a comunicação ativa. Em altares de ferro nos conveses e nas tendas de comando em terra, piras místicas queimavam papéis sagrados: mensagens escritas em papiro desapareciam no fogo de um remetente para se materializarem, em cinzas reordenadas, na pira do destinatário em questão de segundos.

Magos sensoriais, dispostos no acampamento, montaram em hipogrifos e cavalos alados, alçando voo em direção aos navios. Eles pousaram nos conveses de madeira reforçada para atuar como pontes vivas de detecção e comunicação entre a armada, os oficiais em solo e os pequenos esquadrões que se esgueiravam na penumbra das árvores.

Quando a frota finalmente deixou o acampamento para trás e cruzou a linha divisória do canópia fechado da floresta de Druantia, a atmosfera mudou.

Enquanto isso, ao sul da grande floresta Hortalgan, erguia-se a Lady Sérrenis.

Era uma das maiores, mais reforçadas e robustas embarcações voadoras já construídas na história. Seus conveses inferiores e porões blindados estavam abarrotados com centenas de barris gigantes de flulminous — uma substância alquímica altamente volátil. A missão da Lady Sérrenis não era apoiar as tropas de solo: era o aniquilamento absoluto. Ela iria, literalmente, incinerar o coração da Floresta Hortalgan.

A frota que houvera a pouco tempo transporto as delimitações de Oldek, do alto, o mar de folhas verdes parecia uma alfombra inofensiva. No convés do navio de vanguarda, o Capitão Maerck observava a vasta imensidão verde com um desprezo sereno. Para a estratégia de Oldek, a floresta não passava de uma praga de solo — uma massa cega que só conseguia rastejar na lama.

— Não há grupamentos aliados nesta região, senhor — informou o mago sensorial ao seu lado, os olhos brilhando levemente em transe. — Todos estão espalhados e ocupados, mantendo grande parte da mata distraída em combate nos outros extremos.

Maerck caminhou até a proa e fez um sinal seco para um dos magos de guerra ao seu dispor. O arcano ergueu as mãos para o céu, disparando um clarão alaranjado que cortou as nuvens, visível por toda a armada.

O ataque começou como um espetáculo de precisão militar.

A vanguarda dos montadores de dragões mergulhou em formação de esquadrilha enquanto os navios ganhavam mais altitude para garantir a cobertura. Num rasante rápido e coordenado, os dragões passaram rente às copas das árvores, descarregando jorros de fumaça e fogo místico que abriram clareiras instantâneas, incendiando a vegetação viva antes de arremeterem de volta aos céus.

O revezamento era impecável. Quando um grupamento subia para recarregar o fôlego das feras, outro descia metros mais à frente, dando continuidade ao rastro de cinzas e fogo.

A vitória parecia desenhada. Até que Druantia reagiu.

A própria floresta começou a alterar sua biologia interna. A água foi forçada a brotar em volumes surreais do solo e das estruturas das plantas. Embaixo das poucas copas que ainda resistiam ao fogo, uma chuva densa e localizada desabou do nada.

O contato da água fria com a substância incandescente dos dragões produziu uma reação violenta. Fumaça branca, espessa e impregnada de vapor escaldante começou a subir em colunas massivas, engolindo a visibilidade da vanguarda.

A frota de Oldek foi forçada a ganhar ainda mais altitude. Os mergulhos dos dragões tornaram-se perigosos; sem conseguir enxergar o topo dos carvalhos gigantescos, os montadores perdiam a confiança e disparavam suas chamas às cegas, acertando apenas as colunas de vapor sem gerar efeito real na mata.

Nas bordas das embarcações, magos do ar canalizavam energia através de seus cajados, criando ondas de choque contínuas para tentar dissipar a neblina. Mas a altitude era alta demais, e o vapor continuava a brotar do solo como uma respiração descontrolada.

— Senhor, o vento está soprando a nosso favor! — gritou o navegador, segurando o leme com força enquanto o casco rangia. — Os navios estão ganhando velocidade, mas a fumaça está vindo junto com a rajada e cobrindo nossa rota!

— Manobrar a bombordo! — ordenou Maerck, a voz firme. — Vamos deixar essa névoa passar e dar a volta pelo centro da floresta.

A grande frota iniciou a conversão lenta a bombordo, mas o cenário ao redor não melhorou. O ar continuava denso, fosco e pesado. A visibilidade era nula.

— O que está acontecendo? — perguntou um dos navegadores, a mão trêmula na bússola rúnica.

O mago sensorial abriu os olhos, as pupilas dilatadas em horror puro ao decifrar a energia que subia do abismo.

— Não é vapor de fogo... — sussurrou o mago. — A floresta está... exalando.

O palco está montado, a armadilha tática da floresta fechou e o Capitão Maerck acabou de perceber que a fumaça não era só vapor, mas a exalação direta de Druantia.

Após um longo período à deriva, com a velocidade da frota reduzida e os motores rúnicos trabalhando em rotação de espera, o vento finalmente virou. Uma rajada forte e constante começou a soprar contra o flanco das embarcações, empurrando o vapor acumulado e esvaindo as nuvens espessas. Por alguns instantes, o cenário lá embaixo pareceu se limpar.

Debruçado sobre o parapeito do convés principal, o Capitão Maerck observou a brecha na névoa. A ganância tática falou mais alto que a prudência.

— O vento está ao nosso favor! — bradou Maerck. — Vamos retomar a ofensiva antes que a mata feche o teto novamente!

Ao seu comando, o mago de guerra ergueu o cajado e disparou um novo orbe luminescente de cor alaranjada no ar. Ao sinal, a primeira fileira de montadores de dragão ajustou as rédeas e mergulhou com confiança cega em direção ao topo da vegetação.

Mas a clareza era uma ilusão. Assim que as feras cruzaram a linha do canópia, a ofuscação esbranquiçada as engoliu por inteiro.

O que deveria ser uma manobra rápida de ataque e retorno transformou-se em um abismo de silêncio. Um segundo se passou. Cinco. Dez. A primeira fileira de dragões simplesmente não ressurgiu de dentro da nuvem que pairava sobre a floresta Hortalgan.

Lá no alto, a segunda fileira percebeu o perigo a tempo. Os cavaleiros puxaram as selas com desespero; os dragões brecaram de forma abrupta, batendo as asas pesadas para se manterem suspensos no ar, paralisados pela dúvida.


A apreensão tomou conta de toda a armada. Combatentes, navegadores, comandantes e generais abandonaram seus postos e correram para os parapeitos dos navios. Curiosos e horrorizados, centenas de homens se debruçaram nas amuradas, procurando ansiosamente por qualquer rastro dos montadores que haviam afundado na névoa.

O retorno, contudo, veio do modo mais aterrorizante possível.


Sem qualquer aviso sonoro, um tronco de árvore gigantesco brotou do nada, arremessado do leito da floresta a uma velocidade inacreditável. O míssil de madeira atingiu em cheio o flanco de um dos navios de vanguarda.

O impacto foi devastador. A embarcação de madeira e ferro se partiu ao meio, estilhaçando-se no ar antes de despencar dos céus. Uma chuva mortal de destroços, vigas pontiagudas e pedaços de ferro atingiu os navios e os soldados ao redor, ferindo dezenas de homens de maneira grave e lançando outros tantos para a morte no abismo.

A seção traseira da embarcação destruída, resistindo por mais alguns segundos à queda livre, inclinou-se de lado e colidiu violentamente contra o casco de uma nave vizinha. A batida abriu um arrombamento gigantesco na lateral do segundo navio, que começou a perder altitude e adernar lentamente em relação ao restante da formação.

Na sua grande maioria, a tripulação em meio ao desespero de morte por quedas e estilhaços, não se deu conta da grande causa de tudo aquilo, mas, alguns, próximos aos beirais das embarcações, puderam presenciar o olhar frio e fixo do que os havia deixado ainda mais aterrorizado. Dentre a opacidade que ocultava a mata, o que se assemelhava a uma árvore viva, os media. com os olhos verdes brilhantes.

— REVIDAR! FOGO TOTAL LÁ EMBAIXO! — gritou Maerck, o rosto retorcido de raiva.

Ao sinal do capitão, duas embarcações menores de apoio abriram os compartimentos inferiores de seus cascos. Toneladas de flulminous ácido despencaram das trincas, caindo como uma chuva azul e roedora sobre a copa das árvores. Nas bordas dos conveses, magos do ar e do fogo canalizaram feitiços, lançando orbes de luz e rajadas destrutivas para baixo, enquanto dragões remanescentes sobrevoavam a parte inferior dos navios cuspindo labaredas contínuas.

Eles tentaram criar uma barreira de proteção. Mas nem as rajadas de vento, nem o bater das asas monstruosas, nem a magia arcana conseguiram dissipar a opacidade das nuvens que cobriam o solo.

Druantia, com suas raizes ramificadas e conectadas com todas as suas formas, sentiu seus filhos arderem e queimarem sob uma chuva que os derretia e danificava o solo. Foi quando a resposta de sua dor e fúria atravessou a fumaça.


Uma rajada massiva de estacas de madeira maciça, afiadas como lanças de cerco, emergiu do fosco em direção aos céus. A tempestade de madeira perfurou as velas dos navios como se fossem tecido podre. Lanças gigantescas atravessaram os corpos de combatentes e magos posicionados nas amuradas, rasgando homens ao meio e arremessando-os longe.

Em questão de segundos, dezenas de estacas monstruosas fincaram-se na parte inferior dos cascos das naves flutuantes, cravando-se profundamente na estrutura de madeira e deixando a orgulhosa frota de Oldek parecendo um bando de ouriços sangrentos suspensos no ar.

O cenário nos céus era de pura desolação. Velas rasgadas pelo vento balançavam como trapos, cascos de madeira pesada estavam completamente forrados de estacas de madeira, e o arrasto gerado pelos furos fazia com que diversas naves perdessem altitude perigosamente.

Os dragões que ainda conseguiam voar exibiam asas rasgadas e furadas. Corpos de tripulates e guerreiros jaziam retalhados nos conveses, enquanto centenas haviam sido arremessados para a morte nas copas das árvores durante a primeira tempestade de madeira.

Três dos navios menores de apoio, com os tanques perfurados, começaram a vazar flulminous em jorros constantes. A tripulação entrou em pânico e iniciou uma evacuação desesperada. Magos do ar canalizavam bolsas e rajadas de vento para arremessar soldados de uma embarcação para a outra, enquanto batedores fugiam montados nos lombos de grifos e pégasos.

Ao ver os conveses vazios, o mago ao lado do Capitão Maerck disparou um sinal de luz vermelha no céu.

Com impactos certeiros de magia de ar, os magos arremessaram os três navios desgovernados em direção ao abismo. Pouco antes de as embarcações afundarem na neblina de Druantia, cavaleiros de dragão emparelharam em mergulho e incineraram os cascos encharcados de substância alquímica.

A detonação na névoa foi monumental. O clarão do flulminous queimando nas profundezas da mata reluziu através do nevoeiro como relâmpagos presos dentro de nuvens de tempestade. O fogo devorou uma região inteira do ecossistema, abrindo um clarão de cinzas.

No convés, contudo, o alívio durou pouco. Uma maga sensorial correu até Maerck, o rosto pálido e os olhos sangrando pelo esforço arcano.

— Capitão! — gritou ela, a voz trêmula. — Druantia... a floresta compreendeu o nosso objetivo! Ela sabe que a armada busca o coração da mata Hortalgan e está tentando nos derrubar antes que alcancemos o centro!

De repente, o burburinho nos parapeitos recomeçou. Tripulantes apontavam para o abismo, assustados. Maerck e seus comandantes correram para o bico da embarcação e olharam para baixo.

O incêndio gerado pelos navios suicidas estava diminuindo. Porém, sob a fumaça e a opacidade do nevoeiro, dezenas de pontos luminescentes começaram a se mover em velocidade estarrecedora.

Ao perceber a ameaça, o pavor tomou conta de Maerck. Ele correu pelo convés urrando ordens e fez um sinal seco ao mago, que disparou uma luz perolada nos céus.

— SUBIR! MANOBRA DE EMERGÊNCIA! — berrou o capitão.

A frota começou a responder, inclinando os bicos de madeira reforçados para o alto em um ângulo íngreme.

Mas a floresta havia aprendido a lição mais cruel daquela guerra: usar o poder dos invasores contra eles mesmos.

Uma nova e massiva tempestade de estacas emergiu da copa das árvores, rasgando o nevoeiro. Só que desta vez, as pontas das Lanças de Madeira Primordial vinham incandescentes, impregnadas com o próprio fogo místico que havia queimado a vegetação momentos antes.

Linhas inteiras de dragões mergulharam em uma investida suicida, cuspindo fogo na tentativa de incinerar as estacas no ar. Muitos montadores foram alvejados no meio do caminho, empalados e mutilados, caindo em um mergulho eterno para o solo.

O golpe fatal, porém, veio por baixo.

As estacas incandescentes atravessaram as nuvens e adentraram os cascos dos navios. Aqueles cujos tanques de flulminous ainda estavam cheios não tiveram chance. Ninguém teve tempo de evacuar ou desviar.

A explosão foi instantânea e acaparaadora.


Uma reação em cadeia de fogo e detonação mística engoliu a escolta inferior. Embarcações de médio e grande porte explodiram simultaneamente. O choque gerou uma onda de pressão que estilhaçou os navios laterais, transformando madeira e metal em projéteis que rasgaram o resto da armada no ar.

Tudo que restou daquela frota que sucumbiu por sobre a imensa mata viva, foi um pergaminho surgido da pira de quemétra no acampamento de Oldek cujo remetente era Maerk que através dela dizia: Nós não conseguimos. Espero que a Lady Sérrenis, sim.
...

Com grande parte da ameaça aérea controlada, a deusa planta achou que poderia finalmente respirar. Mas, sua paz, não foi algo duradouro. Ela logo pressentia que algo mais se aproximava por cima buscando seu grande berço de repouso e fortalecimento, sua morada, o Centro da Floresta Hortalga. 
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CONTINUA ... >>> 
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