terça-feira, 9 de junho de 2026

Cortando o mal pela raiz! (Parte 2) ⚔️🪾

- 3ª Era, em 2.990 a. R.

A porta da taverna se abriu de uma vez.

Música alta, risadas, cheiro de carne assada. Homens mordendo javali no osso, canecas passando de mão em mão, bebida derramando no próprio peito sem ninguém se importar.

Muitos estavam só comemorando, outros agradecendo por terem sobrevivido à batalha, enquanto outros, estavam passando por ali rumo à linha de frente.

De qualquer forma, o lugar fazia não parecer que o mundo estava em guerra contra uma deusa enraizada.

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ANTERIORMENTE EM HÉPHYRIS...
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Do lado de fora, Carik, o rastreador, jogava gravetos para Fena.

— Pega, Fena! — gritava, rindo, enquanto o cão corria, buscava e voltava ofegante.

Mais afastada, Néfa, outra rastreadora e espiã do grupo, estava sentada num cercado de madeira. Dorow subia aos céus e descia de volta para seu braço, repetidas vezes, como se testasse o vento.

Faranddal era o capitão, líder deles, e aguardava encostado na lateral da porta, braços cruzados, olhar frio para a porta da taverna.

Mazaf, o mago e Zaran, o arqueiro do grupo, surgiram arrastando Eleu, que por sinal pesava muito com sua forte armadura, completamente bêbado, com uma caneca ainda presa na mão. Um de cada lado. Atrás deles, Harllan, um brutamontes, saiu rindo.

Faranddal se desencostou da parede, sem dizer nada. Desamarrou o cavalo e montou.

Mazaf e Zaran jogaram Eleu dentro da carroça. Ele caiu deitado aos pés de Ília, que olhou para ele como quem não acreditava no que estava vendo.

Harllan subiu na frente, pegou as rédeas. Mazaf sentou ao lado dele. Zaran, Carik e Néfa montaram seus cavalos.

— Faz tempo que estamos esperando — disse o capitão.

Zaran deu de ombros.
— Você conhece meu irmão. Eleu não tem freio pra diversão.

Fena saltou para dentro da carroça e começou a lamber o rosto de Eleu. Ele abriu um olho, sorriu torto… e vomitou direto na bota de Ília, a maga sensorial do grupo.

— Ah, que nojo! — ela gritou.

Harllan e Mazaf caíram na risada.

A carroça começou a andar.
Cavalos em passo lento.
Dorow voando acima deles, vigiando o horizonte.

...

A carroça seguia lenta pela estrada de penhasco, rangendo sob o peso do grupo. O vento batia frio vindo da montanha, trazendo cheiro de pedra úmida e fumaça distante.

Harllan ia na frente, segurando as rédeas ao lado de Mazaf.

— Quando eu voltar, vou comer a melhor torta de maçã de todas — disse, com um meio sorriso. — A da minha mãe.

Mazaf riu, ajeitando o manto.

— Engraçado ouvir isso de você, com esse tamanhão todo.

Antes que Harllan respondesse, Eleu surgiu de trás da carroça, ainda meio torto da bebida, e deu um tapa leve na cabeça do mago.

— Ah, para… você também é mimado pela sua mãe.

Mazaf xingou baixo, mas sorriu. Harllan virou o rosto para trás, rindo — e então percebeu Ília sentada no banco, encolhida sob o capuz, o olhar perdido no vazio da estrada.

— Ília, tudo bem?

Ela demorou a responder.

— É… acho que sim.

Mas a voz saiu sem convicção.

O caminho se estreitava agora, margeando o abismo. À direita, a montanha fechada. À esquerda, o desfiladeiro mergulhando na neblina.

Acima deles, Dorow, o gavião de Néfa, voava em linha reta… até frear de repente.

As asas abertas, agitadas demais. Não avançava. Não recuava.

Os cavalos começaram a relinchar baixo, inquietos, puxando as rédeas. Um silêncio estranho se espalhou pelo grupo, pesado, como se o mundo tivesse prendido o fôlego.

Foi então que ouviram.
Explosões distantes. Gritos. Um som abafado de coisa grande quebrando.

Antes que alguém dissesse qualquer coisa, dois cavalos surgiram na curva à frente, correndo descontrolados, puxando uma carroça em chamas. As rodas pegavam fogo, a madeira estalava, e ninguém os conduzia.

Eles passaram pelo grupo como um raio e segundos depois, o som seco do impacto ecoou no vazio, seguido de um estalo longo — e silêncio.

O desfiladeiro engolira tudo.

...

O grupo chega ao local, mas, o acampamento não parecia um posto avançado de vanguarda.
Parecia um campo abandonado depois de um massacre.


Homens e animais jaziam espalhados pelo chão, alguns ainda se mexendo, outros partidos ao meio, presos em raízes endurecidas como garras. Soldados corriam em direções opostas carregando corpos em macas improvisadas, deixando rastros de sangue pela terra.

Em um canto, uma pilha de mortos crescia em silêncio. No outro, outra já ardia em chamas, o fogo misturado ao cheiro de carne e resina queimada.

O grupo desceu da carroça sem dizer nada.
Harllan começou a ajudar os feridos.
Ília, em choque, recolhia crianças perdidas e as colocava junto dos inconscientes, como se aquilo ainda fosse um lugar seguro.

Eleu, o guerreiro e o mago carregavam quem conseguiam, até que um homem de armadura pesada se aproximou com dois guardas.

— Identificação. Agora.

O capitão deu um passo à frente.
— Grupamento de apoio vindo de Herterer.

O homem de armadura apenas assentiu, sem real interesse.
— Procurem os responsáveis pelas áreas. Ajudem com o que for necessário.

E seguiu adiante, gritando ordens para outros soldados.

O grupo se espalhou pelo acampamento.

Seiva escorria dos telhados das tendas, corroendo o tecido como ácido. Em alguns pontos, o chão estava tomado por raízes finas que ainda se moviam lentamente, como veias expostas. Homens jaziam pendurados por cipós, outros estavam cravados em espinhos grossos que atravessavam armaduras, carne e madeira ao mesmo tempo.

Corpos eram arrastados para fora do perímetro e empilhados. Outra pilha, já maior, queimava ao longe.

Ília caminhava em silêncio, recolhendo crianças perdidas e colocando-as sobre a carroça junto dos feridos. Eleu, Zaran e Mazaf ajudavam a carregar homens inconscientes, alguns sem braços, outros sem rosto reconhecível.

O cheiro de sangue se misturava ao de fumaça e seiva.

De repente, uma mulher surgiu entre os escombros, coberta de terra e fuligem. Os olhos arregalados, respiração descompassada. Ela agarrou Ília pelos ombros com força.

— Eles… eles vão nos matar… — a voz falhava. — Vão consumir tudo… precisamos sair daqui…

Ília tentou se soltar, segurando os braços da mulher.

E congelou.

Seu olhar perdeu o foco, como se estivesse vendo algo que não estava ali. O corpo ficou rígido. A mulher começou a gritar, desesperada, sacudindo-a.

— Corram! Corram! Eles estão em toda parte!

As duas se soltaram. A mulher fugiu em meio aos destroços, rindo e chorando ao mesmo tempo.

Ília cambaleou para trás. Respirava rápido demais. Os olhos ainda perdidos por alguns segundos… até voltarem ao normal.

Harllan se aproximou, apoiando a mão em seu ombro.
— O que você viu?

Ília não respondeu de imediato. Engoliu em seco.

— Nada… — mentiu. — Nada que eu consiga explicar.

...

A carroça e os cavalos foram deixados de lado. O grupo foi direcionado para a área dos recrutas, no limite do acampamento. O céu encobria a noite com uma manta escura e fria. Eles se sentaram ao redor de uma fogueira baixa por alguns minutos, o silêncio substituindo as risadas da taverna. O choque do que viram na chegada ainda pesava nos ombros de cada um. Sem dizer muito, recolheram-se para as tendas de lona cinzenta e áspera.

Ília deitou-se sobre um pedaço de tecido improvisado no chão de terra batida. O cansaço era extremo, mas o sono não vinha. Havia um zumbido sutil em sua mente, uma vibração incômoda que parecia subir do próprio solo.

No decorrer da noite, a sensação mudou de incômodo para um alerta violento. Ília disparou para cima, o coração batendo na garganta. A respiração estava curta; ela sabia que tinha algo errado. Meio tonta, cambaleou na penumbra da tenda e acabou esbarrando em uma elfa recrutada que dormia logo ao lado.

A elfa acordou assustada e imediatamente mudou para uma expressão estressada, ajeitando as orelhas pontudas sob o manto. — O que foi?! — perguntou em um sussurro ríspido. — Não vê que está todo mundo tentando descansar? Deita aí!

— Tem alguma coisa errada... — Ília pediu, com os olhos arregalados, a voz trêmula. — Você não está sentindo?

— Eu quero continuar dormindo, garota, me deixa... — a elfa começou a resmungar, virando o corpo para o outro lado. Mas ela travou no meio do movimento.

O silêncio da madrugada foi cortado por um estalo seco, agudo, como uma árvore imensa partindo-se ao meio nas proximidades. Em seguida, o som distante de uma gritaria começou a ecoar. Cavalos relinchavam em pânico e o barulho de estruturas de madeira quebrando começou a se aproximar rapidamente.

— Acordem! Agora! — a elfa gritou, a irritação virando pavor.

Dentro da tenda, o caos se instalou. Todos acordaram num salto, tateando no escuro atrás de botas, adagas, arcos e mantos. O grupo de Herterer moveu-se rápido, o instinto de sobrevivência falando mais alto. Ao saírem das tendas, o cenário era aterrorizante.


Na escuridão da noite, a parte do acampamento mais próxima à margem da floresta já estava em chamas. As labaredas lamberam as tendas, e entre a fumaça densa e avermelhada do incêndio, uma silhueta colossal se erguia. Era um humanoide gigante, todo feito de casca de árvore escura, gavinhas retorcidas e galhos cheios de pontas afiadas. A criatura se movia com uma força bruta assustadora, golpeando o chão com os braços que pareciam troncos, causando impactos que faziam a terra tremer, seguidos por gritos desesperados.

Vários soldados veteranos e novos recrutas corriam em direção ao combate com espadas e lanças em punho. Outros, tomados pela covardia ao verem o tamanho do monstro, soltavam as armas e corriam para fora do perímetro do acampamento, gritando em desespero.

Ília não correu para a frente. O pânico e o mau pressentimento que a assombravam desde a tarde a puxaram na direção oposta. Com os gritos ecoando e as labaredas subindo, a mente dela colapsou de medo. Enquanto o acampamento entrava em guerra, Ília começou a recuar com passos vacilantes, o peito subindo e descendo rápido demais. Ela deu as costas ao fogo e começou a se afastar, com muito receio, misturando-se aos covardes que fugiam, até que a escuridão dos fundos do acampamento a engoliu por completo.

Enquanto isso, na orla de fogo, os integrantes da sua equipe vinham de outras extremidades do acampamento, com as armas prontas e os olhares fixos na ameaça.

De repente, o som de cascos galopando com força chamou a atenção. Era o oficial de armadura pesada que havia feito pouco caso deles na chegada. Ele vinha montado em um cavalo de guerra, erguendo uma lança longa com ponta de aço, investindo direto contra o colosso de madeira.

Mas a floresta não jogava pelas regras dos homens. O monstro de casca de árvore soltou um esturro grave, um som de madeira rangendo sob alta pressão. O cavalo se assustou com o brilho dos olhos de seiva da criatura, empinou violentamente e jogou o oficial direto no chão. O homem de armadura pesada bateu com força na terra úmida, a lança rolando para longe. Desajeitado pelo peso das placas de metal, ele tentou se levantar desesperadamente para correr.

Não houve tempo. O humanoide ergueu uma de suas pernas massivas, feita de raízes compactadas, e pisou com tudo em cima do peito do homem. O estalo da armadura colapsando e dos ossos se quebrando ecoou sob o peso esmagador. O monstro afundou o oficial na lama, finalizando-o sem o menor esforço, e bufou uma fumaça cinzenta de resina.

O pavor ameaçou paralisar o acampamento, mas o grupo de Herterer se moveu como um só corpo. A tensão era palpável, mas o entrosamento deles falou mais alto.


Néfa deu o comando. Acima deles, o gavião Dorow desceu como uma flecha cortando o ar enfumaçado. A ave voou direto no rosto do monstro, batendo as asas com fúria e cravando as garras nas fendas brilhantes da casca que serviam de olhos, atrapalhando completamente a visão e os movimentos do gigante.

Aproveitando a distração, Zaran, posicionado entre os escombros de uma tenda, puxou a corda do arco até o limite. Ele soltou o ar e disparou. A flecha cruzou o fogo e se cravou com precisão cirúrgica no outro olho da criatura. O monstro soltou um urro de dor, sacudindo a cabeça para livrar-se do gavião.

— Agora! — gritou Harllan, avançando pela lateral.

Mazaf, o mago, ergueu o cajado concentrando a energia ao seu redor. Com um movimento rápido, ele disparou uma sequência de bolas de fogo vibrantes. Os projéteis mágicos atingiram o ombro e o peito do humanoide, explodindo em faíscas e estalando a casca de árvore protetora, deixando o material queimado e fragilizado.

No calor da investida, Eleu mostrou por que era o guerreiro da vanguarda. Totalmente focado, ele correu em direção à perna de apoio do monstro, jogou o corpo para a frente e passou escorregando de joelhos por baixo dos galhos inferiores. No movimento, desferiu um corte horizontal violento com sua espada larga, decepando o tendão principal feito de gavinhas da perna esquerda da criatura.

O gigante vacilou, o equilíbrio severamente comprometido.

Vindo pelo flanco oposto, o cão Fena avançou latindo ferozmente e cravou os dentes afiados na outra perna do monstro onde aferiu várias mordidas rasgando as raízes menores e se segurou impedindo que ele se apoiasse para recuperar a postura.

— Sai da frente! — berrou Harllan.

O brutamontes correu pegando impulso nos destroços de uma carroça e saltou com tudo no ar. O machado de guerra e o escudo pesado veio de cima para baixo, acumulando toda a força cinética do impacto. Harllan atingiu em cheio o peito fragilizado pelo fogo de Mazaf, quebrando a estrutura central do monstro. O impacto foi tão brutal que o colosso de madeira foi jogado para trás, desabando pesadamente no chão do acampamento, quebrando várias tendas sob seu tamanho.

O monstro, no entanto, ainda estava vivo. A seiva ácida escorria de suas feridas e os galhos dos braços começaram a se apoiar na terra com força, empurrando o corpo gigante para cima novamente. Os guerreiros arfavam, surpresos, sem tempo de reagir antes que o colosso ficasse de pé.

Foi então que o chão tremeu de uma forma diferente.

De repente, uma explosão de magia de amarrações, feita de pura energia brilhante e magnética, brotou da terra logo abaixo do corpo do humanoide. Os feixes serpentearam agressivamente do solo, travando os braços, as pernas e o tronco do gigante contra a terra, imobilizando-o por completo.

Surpresos pelo feitiço inesperado, os guerreiros e o mago olharam imediatamente para um dos cantos escuros da área da batalha.

Surgindo da penumbra da metrópole de tendas destruídas, com o rosto pálido, o suor misturado à fuligem e as mãos estendidas tremendo pelo esforço, estava Ília. Ela estava chegando na área justamente naquele segundo, conjurando as amarras com os dentes cerrados. Ela havia recuado pelo pânico, mas o laço com os amigos a fez controlar o medo e voltar a tempo de travar o gigante no chão.

O capitão Faranddal, aproveitando a brecha perfeita e vendo o negócio totalmente preso, correu pela carcaça travada do monstro. Ele subiu com agilidade pelo tronco enraizado, pisou com firmeza no peito da criatura presa e, com as duas mãos no cabo de sua espada, fincou a lâmina com força total no pescoço do negócio.

Com um urro de esforço, Faranddal puxou a espada horizontalmente, cortando as últimas gavinhas que sustentavam a cabeça do humanoide. A cabeça de madeira rolou pelo chão, os olhos de seiva apagando lentamente até virarem cinza morta. O corpo gigante relaxou, desfazendo-se em galhos secos.

O silêncio retornou ao acampamento, quebrado apenas pelo estalar das brasas. O grupo de Herterer estava arfando, sujo de fuligem e seiva, mas todos estavam de pé. Eles se olharam, e aos poucos, a tensão nos rostos deu lugar a uma sensação de alívio e pura confiança. Eles tinham feito o que os muitos ali não tiveram coragem, não conseguiram e morreram tentando.

Passos firmes ecoaram de trás da fumaça. O General responsável pelo setor, acompanhado por sua guarda pessoal, aproximou-se caminhando lentamente entre os corpos dos soldados caídos pisando por sobre o sangue escorrido que tingia o solo. Ele olhou para os restos do colosso de madeira, depois para o grupo de Herterer.

Lentamente, o General começou a aplaudir. As palmas secas ecoavam no acampamento destruído.

— Olhem só... — disse o General, com um meio sorriso imponente. — E eu achando que Herterer tinha me enviado apenas carregadores de maca e pessoal de apoio. Vocês se saíram super bem. Mostraram uma fibra que poucos aqui dentro têm.

O capitão Faranddal limpou o sangue verde da lâmina na calça e guardou a espada, mantendo a postura séria, mas o restante do grupo inflou o peito. Mazaf ajeitou o manto com orgulho; Eleu deu um sorriso de canto de boca para o irmão Zaran. Até Ília, ainda recuperando o fôlego, sentiu o peso do medo diminuir diante do elogio.

O General deu mais um passo à frente, mudando o tom para algo mais direto e estratégico:
— O esquadrão de elite que estava designado para abrir o flanco ao amanhecer acabou de ser morto por essa coisa, bom, pelo menos, maioria deles, minutos antes de vocês a derrubarem. Mas vejo que os substitutos à altura acabaram de se apresentar. Vocês entrarão na selva logo pela manhã para cumprir a missão deles. Pegaremos a floresta de surpresa por aquela brecha.

Os integrantes do grupo se olharam entre si. Os sorrisos nos rostos eram confiantes. Eles sentiam que tinham provado seu valor, que não eram descartáveis e que estavam prontos para enfrentar o coração da mata da Druantia. A sensação de vitória era real.

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