- 4ª Era, 478 a. R.
A lua cheia iluminava as torres de Svelldeth, projetando sua luz prateada sobre o imponente castelo. No interior de um quarto luxuoso, com cortinas douradas e paredes cobertas de tapeçarias bordadas, a rainha Erasa lutava para dar à luz.Do lado de fora, nos corredores de pedra fria, o rei Valtherion caminhava de um lado para o outro. Seu manto escarlate arrastava no chão, mas ele não parecia notar. Ao seu lado, seus conselheiros tentavam tranquilizá-lo, mas o nervosismo estampado em seu rosto não deixava dúvidas: a espera o consumia.
De repente, um som rompeu o silêncio. O choro de uma criança ecoou pelos corredores. Valtherion parou abruptamente, seus olhos arregalados fixos na porta do quarto. Por um instante, um sorriso nasceu em seu rosto, mas logo foi substituído por uma expressão de dúvida ao ver a parteira abrindo a porta com um semblante grave.Ela se aproximou do sábio Orthen, que acompanhava o rei. Com um tom calmo, mas carregado de seriedade, a parteira pediu:
— Majestade, peço que aguarde aqui. Mas o sábio precisa entrar.
Valtherion franziu o cenho.
— O que está acontecendo? Por que eu não posso ver minha filha?
— Por favor, meu senhor, confie em nós — respondeu a parteira.
Mas Valtherion, ansioso demais para esperar, ignorou o pedido. Seguiu Orthen e a parteira para dentro do quarto.
O quarto estava preenchido por um silêncio estranho, quebrado apenas pela respiração ofegante de Erasa. A rainha, pálida e exausta, ergueu os olhos ao ver o marido entrar. Valtherion se ajoelhou ao lado dela, segurou sua mão e beijou-lhe a testa com ternura.— Você foi incrível, meu amor — sussurrou ele.
Enquanto isso, a parteira entregava a recém-nascida ao sábio Orthen. A criança estava envolta em toalhas brancas, seus pequenos olhos fechados, mas algo chamou a atenção do sábio. Com delicadeza, ele virou a garotinha e viu uma marca em suas costas.
Os olhos de Orthen se estreitaram, e sua expressão tornou-se sombria. Ele segurou a criança firme, como se tentasse protegê-la de algo invisível. Olhou para Valtherion e Erasa com uma mistura de preocupação e urgência.
— O que foi, Orthen? — perguntou o rei, sua voz trêmula.
O sábio não respondeu de imediato. Ele entregou a criança de volta aos braços da parteira, aproximou-se da porta e a abriu com força.
— Guardas! — chamou ele. Dois soldados apareceram no corredor, suas lanças firmes. — Vocês dois, postem-se aqui e não saiam deste lugar, sob nenhuma circunstância.
Sem esperar por resposta, Orthen virou-se para Valtherion.
— Majestade, precisamos conversar. Agora.
O rei se aproximou, pegando uma das anotações com mãos trêmulas. Ele começou a olhar os símbolos cuidadosamente, virando as folhas com pressa, seu olhar cada vez mais inquieto. Os símbolos nas páginas correspondiam exatamente à marca nas costas da filha recém-nascida.
Orthen, com uma expressão grave, começou a explicar:
— Esses símbolos, majestade, são muito antigos. Eles marcam o indivíduo escolhido para trazer equilíbrio ao mundo. Um escolhido... mas sempre houve um grande preço a ser pago. Toda a história de Héphyris está entrelaçada com sacrifícios, perdas e transformações que surgem com a ativação desse poder. A marca que você viu, na sua filha... ela não é apenas uma cicatriz. Ela é um símbolo de um destino imenso e perigoso.
O rei, cada vez mais agitado, segurava a anotação antiga com força. Ele não podia acreditar no que estava ouvindo. Seus pensamentos estavam confusos, mas uma sensação de pavor crescente o envolvia.
— E o que isso significa para minha filha, Orthen? O que isso significa para o futuro de Héphyris?
Sem dar mais explicações, Valtherion se virou abruptamente e, sem esperar mais, saiu da biblioteca, caminhando apressadamente pelos corredores do castelo. Ele sentia a necessidade de voltar ao quarto de sua esposa, onde tudo havia começado.
Quando o rei entrou no quarto, Erasa, ainda repousando na cama, sorriu para ele, um sorriso suave e cansado. A princesa, envolta nas toalhas, estava descansando em um berço próximo. Mas Valtherion não parecia notar nada disso. Sua mente estava consumida pela revelação que acabara de descobrir.
A rainha, percebendo a tensão no rosto do marido, disse com calma:
— Precisamos escolher um nome para nossa filha. Eu gostaria que você fizesse essa honra, meu amor.
Valtherion a ignorou. Ele caminhou rapidamente até o berço, seus olhos fixos na criança, e pegou-a no colo com uma expressão que misturava amor e apreensão. Sem dizer uma palavra, virou a menina em seus braços e, com uma pressa quase desesperada, virou-a de costas para ele, comparando a marca na pele dela com o símbolo desenhado na folha que ainda segurava em sua mão.
O choque foi imediato.
A marca nas costas da princesa era idêntica àquela que estava nos pergaminhos. Ele não podia acreditar. O que isso significava para o futuro de sua filha? O que isso significava para o futuro de todos?O rei, de olhos arregalados, olhou para a rainha, mas suas palavras falharam. Sua mente estava turbilhonada, e ele mal conseguia formar uma frase. O que ele deveria fazer? O que ele deveria dizer?
Valtherion ainda estava em choque, segurando a filha nos braços e olhando fixamente para a marca nas costas dela. Ele estava imerso em seus pensamentos, as palavras de Orthen reverberando em sua mente. O rei não conseguiu esconder sua angústia, até que ouviu o som de passos rápidos se aproximando.
A porta do quarto se abriu com força, e o sábio Orthen entrou, seguido pelo General Tarvik, o comandante da guarda de Svelldeth. A presença do general, com sua armadura pesada e olhar firme, imediatamente trouxe uma sensação de urgência ao ambiente.Orthen não perdeu tempo. Aproximando-se rapidamente do rei e da rainha, ele falou com a seriedade de quem carregava um peso imenso em suas palavras.
— Majestade, rainha, precisamos levar a princesa e a senhora para um local mais seguro, agora.
Valtherion olhou para Orthen, ainda sem conseguir processar tudo o que estava acontecendo. Mas, instintivamente, ele sentiu que as palavras do sábio estavam corretas. A situação estava fora de controle. Ele olhou para Erasa, que estava visivelmente assustada, ainda sem entender o que estava acontecendo.
A rainha, no entanto, não estava disposta a ceder tão facilmente. Com uma expressão de preocupação e raiva misturadas, ela se levantou da cama com dificuldade, seus olhos fixos no sábio.
— O que está acontecendo, Orthen? O que está acontecendo com nossa filha? Por que você quer tirá-la daqui?
Orthen, com uma pressa desesperada, olhou para o general Tarvik, que fez um sinal silencioso aos guardas. Sabia que o tempo estava se esgotando.
— Rainha Erasa, você não entende. Cultos, seitas, assassinos… até mesmo os deuses virão atrás da sua filha. E esse castelo, esse quarto, não são mais seguros. Precisamos nos mover agora.
Valtherion se aproximou de Erasa e a segurou pelos ombros, tentando acalmá-la, mas a dor e o medo em seus olhos eram evidentes.
— Orthen tem razão, minha querida. Não podemos ficar aqui.
Erasa, surpresa e assustada com a gravidade da situação, olhou para o rei com desespero.
— Mas… por que? O que há de tão perigoso nela? O que é essa marca?
Orthen deu um passo à frente, os olhos sérios e profundos.
— Essa marca, minha rainha, é um símbolo ancestral. Ela marca o início de um destino imenso. E, como sempre aconteceu ao longo da história de Héphyris, aqueles que são escolhidos para restaurar o equilíbrio do mundo não estão livres de perigos. Cultos e seitas secretas, que buscam a destruição dos escolhidos, já estão em movimento. E a ameaça não é apenas humana. Os deuses, ou pelo menos alguns deles, não vão permitir que a filha de Héphyris viva sem lutar por seu destino.
A rainha, agora mais pálida, olhou para sua filha nos braços do rei. Ela nunca imaginou que um simples nascimento pudesse carregar uma ameaça tão grande.
— Mas, Orthen… onde vamos? Para onde devemos levar nossa filha?
O sábio olhou para o general, que deu um passo à frente, firme e resoluto.
— A fortaleza subterrânea. É o único lugar dentro do castelo que é suficientemente seguro, cercado por magia e protegidos por nossos mais leais guerreiros. Mas precisamos ir agora, sem hesitar.
Valtherion e Erasa trocaram olhares, ambos conscientes de que algo muito maior estava acontecendo. O que começara como a alegria do nascimento de uma filha agora se transformava em uma corrida contra o tempo.
A rainha, embora ainda hesitante, percebeu que não havia mais tempo para discutir. Ela olhou para sua filha nos braços de Valtherion, seu olhar cheio de medo e amor incondicional.
— Então, vamos. Não podemos perder mais tempo.
A descida até os subterrâneos de Svelldeth foi lenta, cada degrau ressoando como um aviso de que algo imenso estava prestes a acontecer. O corredor principal que levava às câmaras de proteção era cercado por paredes espessas de pedra e encantamentos que datavam de gerações antigas. Mas à medida que se aproximavam do salão onde a rainha e a princesa seriam guardadas, uma sensação de inquietude tomou conta de Erasa. Seria aquilo suficiente? Estariam realmente seguros?
O subterrâneo de Svelldeth era um local de extrema segurança, selado por magia há séculos. Encantamentos complexos protegiam cada entrada e saída, mantendo tudo sob estrita vigilância. Os mais leais soldados da guarda real estavam posicionados em pontos estratégicos, com ordens claras de garantir que nenhum intruso, seja ele humano ou não, adentrasse o local.
Os salões eram sombrios, mas acolhedores, e a princesa foi colocada em um berço de pedra forrado com peles e tecidos macios. A rainha, exausta, se acomodou ao lado de sua filha, cercada por um círculo de guardas e magos, todos garantindo que nenhum mal se aproximasse.
Mas, apesar de toda a proteção, Orthen, o sábio, não parecia tão tranquilo quanto os outros. Ele sabia que, por mais que o subterrâneo estivesse protegido, o mundo de Héphyris era muito maior do que qualquer fortaleza. O perigo poderia vir de lugares inesperados.
Sem fazer muito alarde, o rei Valtherion deu ordens claras para que os portões da cidade de Svelldeth fossem fechados imediatamente. A entrada e saída seriam rigorosamente controladas, com todos os acessos vigiados. O efetivo da guarda real se posicionou nas muralhas da cidade, reforçando a segurança, enquanto arqueiros patrulhavam os muros para garantir que nada — nem ninguém — conseguisse entrar ou sair sem ser visto. A tensão era palpável, mas o rei sabia que era necessário agir com cautela e precisão para proteger sua família e o reino....









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