quinta-feira, 18 de julho de 2024

Uma última dose... 🍺💀

É inverno no extremo do continente de Úlmeghao, ao norte de Vulcânia, onde Uzin Ezrun, encapuzado e sob uma túnica, caminha com dificuldade na imensa floresta morta e gélida atolando seus pés em um alto volume de neve.

O frio se intensifica quanto mais se caminha para o norte, direção para onde Uzin esta indo.

A uma certa distância de uma clareira, onde a pouca luz do céu de nuvens carregadas consegue iluminar, é possível visualizar dentre o intenso nevoeiro uma construção ofuscada e Uzin, gelado, tomado pelo intenso frio inigualável, caminha até lá na busca por abrigo.

É chegando próximo que se nota ainda sim com dificuldades, corpos jogados pelo chão que a neve já quase cobre, portas destruídas, vidraças quebradas e parte do telhado caído com marcas de queimado.

Um dos corpos no chão, aparentemente um homem de mais idade, segurava uma espada nas mãos onde na ponta de sua lâmina estava preso um pedaço de tecido vermelho. Uzin então se abaixa, pega a tira de tecido e enrola lentamente em sua mão.

Ao entrar na casa, uma cena corta seu coração e no pouco da face que a luz podia revelar por baixo do capuz, lagrimas escorrem sob seus olhos. A visão são mais corpos, marcas de violência, sangue e uma boneca e um cavalinho de madeira jogados no chão, porém, sem qualquer criança viva ou morta por ali. Ele tira todos da casa carregando-os no colo e os deita no chão do lado de fora, mas a tempestade só piora e ele deve logo se recolher e continuar oque planeja pela manhã.

A escuridão não demora a vir e o frio vai ficar insuportável em breve, Uzin vira a mesa caída em pé e a empurra contra a porta destruída, quebra algumas cadeiras batendo-as com força no solo e acende a lareira onde sentado, repousa e degusta algumas frutas de sua bolsa e então deitado em um canto, segurando uma espada rústica de metal batido empunhada e abraçada sobre o peito, pega no sono.

O dia amanhece com ele do lado de fora abrindo covas próximo as árvores que circulam a casa e ali enterra todos que encontrou sem vida colocando uma cruz de madeira para cada.

Ao notar um leve clarear do céu dentre as nuvens, ele deixa o local e retoma seu caminho rumo ao extremo norte do continente.

...

Após dias de caminhada, ao escurecer no fim de mais um gélido dia, é possível enxergar uma fumaça que se ergue dentre a névoa que sai de uma chaminé tão elevada quanto a copa das árvores.

Uzin chega próximo e vê cinco cavalos amarrados enquanto ouve risadas extremamente altas vindas de dentro da construção e chegando mais próximo, nota uma placa pendurada coberta de neve e com uma batida de mão que derruba o gelo revela a escrita que demarcava hospedaria.

Abrindo educadamente a porta, Uzin se depara com um lugar simples, todo feito em madeira, iluminado por lamparinas, velas e uma lareira, nota também logo nos primeiros passos observando com os olhos serrados que em uma das mesas haviam cinco homens de armadura, sentados, eufóricos, falando asneiras e dando socos na mesa com fortes risadas, o que seria absolutamente normal em uma hospedaria com um bar térreo naquele trajeto.

Andando até o balcão, nota que o atendente é um senhor de mais idade que esta com uma feição apreensiva, porém, sem dar qualquer importância, pede ao velho um quarto para aquela noite colocando duas moedas sobre o balcão e senta-se em uma mesa próxima.

- Belizie, por favor, sirva aquele homem que chegou. - disse o senhor da hospedaria após engolir seco.

Logo uma moça jovem de cabelos castanhos, vestido simples e avental sujo surge de trás de uma cortina levando uma bandeja onde em cima havia um jarro e uma caneca de cerâmica e caminha até Uzin, que olhando para ela, também nota tensão.

- Servido, moço?

- Sim, por favor! - responde Uzin que faz com que a moça comece a virar o jarro na caneca da bandeja, mas, de imediato ele a interrompe:

- Não, por favor, eu tomo na minha própria caneca. - diz ele tirando uma caneca de metal batido, escura, com um aspecto peculiar. Porém, sem indagar, Belizie começa a encher a caneca dele até que é interrompida próxima de completá-la por um grito grosseiro.

- Ei, vem aqui belezinha!

Assustada, ela derrama um pouco da bebida sobre a mesa de Uzin e totalmente atrapalhada deixa-o imediatamente e anda receosa até os homens. Então, um deles a puxa forçadamente colocando-a sentada em seu colo que derruba a bandeja e tudo que havia nela no chão.

Uzin da um gole na sua bebida e olha de canto de olho para os homens e vira o olhar também de canto de olho para o outro lado e nota o senhor paralisado atras do balcão.

Um dos homens bate a mão no ombro do seu companheiro de mesa e diz:

- Pare com isso, solta ela, agora não! Deixe ela trazer mais bebida para a gente!

Belizie, então, se levanta rapidamente retirando-se dentro os braços do homem e corre para trás da cortina onde parecia ser a cozinha.

- Olha aqui, seus manés, eu vou amarrar essas joias na minha mão, porque vocês não vão tomar essas joias de mim, hoje eu não vou pagar um tostão, já me fizeram gastar tudo da última vez nas Gêmeas. - disse um dos homens, quando seu amigo do lado levantou e deu um tapa na sua nuca.

Uzin olhando de rabo de olho percebeu, que a veste por baixo da armadura do homem em pé era vermelha, e notou a ausência de uma tira em sua ponta e logo olhou discretamente para sua mão bem como também percebeu que os homens haviam vindo das Gêmeas, cidade ao Sul, pouco tempo antes dele supostamente pelo mesmo trajeto e afinal, o que um homem dentre outros homens estaria fazendo com uma pequena bolsinha de joias?

Uzin coloca a caneca sobre a mesa mesmo que ainda segurando sua alça, aperta firme e tira vermelha e seus traços faciais se enfurecem.

No mesmo instante, Belizie sai da cozinha segurando uma bandeja e trêmula, desajeitada, anda até a mesa dos homens. Então, após servir cada um dos homens sobre o olhar fixo deles, novamente o mesmo a agarra puxando-a pela cintura. 

- Me solta! - grita ela forçando com os braços sobre o peito do homem tentando se empurrar para longe dele.

Logo, um soco forte sobre a mesa atrai toda atenção trazendo o silêncio seguido de uma voz lenta e tranquila que dizia:

- Solta ela! - pede Uzin.

Os homens se olham entre si e começam a dar risada e aquele que ainda segura a moça pergunta:

- O que você disse!?

- Eu disse que solte ela. Você não entendeu? - respondeu Uzin.

O homem soca com força a mesa, empurra Belizie para o lado que cai no chão e solta um grito:

- Com quem acha que está falando!?

Uzin da um gole lento na sua caneca e responde:

- Acho que estou falando com um bando de imbecil!

Enfurecidos, os homens se levantam e jogam as cadeiras para trás, empurram e mesa e andam até a mesa onde Uzin esta sentado. Belizie vendo aquilo, levanta-se rapidamente e tenta segurar o braço de um deles dizendo:

- Não, por favor. Deixem ele em paz! Pegarei mais bebida para vocês!

O homem quem tinha seu braço segurado pela moça, da um tranco com força se soltando e volta seu braço contra ela empurrando-a sobre uma mesa. Uzin para de beber e olha para ela notando seu olhar de desespero.

Os homens puxam as cadeiras da mesa dele, viram elas e se sentam de peito no encosto enquanto aquele que parecia ser o líder deles, permanecia em pé apoiado na mesa encarando Uzin que  continuava tomando tranquilamente sua bebida.

- Então, você acha que é durão? - pergunta o líder enquanto Uzin permanecia em total silêncio.

Os outros começam a olhar de cima embaixo pelos lados da mesa verificando se ele carregava armas.

Então, após degustar um pouco mais de sua bebida, ele decide falar:

- Essa será a última dose!

- Hahahaha! - todos dão risada, inclusive Uzin. Então, o homem pergunta:

- Você tem mais algum pedido além da sua porcaria de bebida?

O senhor e Belizie entram atrás do balcão e ficam meio escondidos apreensivos com toda a situação enquanto o diálogo tenso prossegue.

- Não, vocês não entenderam. Essa não será a minha última dose, mas, será a última coisa que vocês verão, pois, é o brinde que ofereço a vocês. - responde Uzin e todos novamente começam a rir.

Balançando mais uma vez o corpo olhando ao redor da mesa verificando ele, o líder deles questiona sarcasticamente:

- E você vai fazer o que? Vai matar todos nós com essa caneca maneira? 

Todos dão risada novamente e um deles, sentado de um dos lados da mesa pergunta:

- Será que depois eu posso ficar com essa caneca para mim?

Uzin termina sua bebida finalmente e segurando firme a alça, estende seu braço colocando a frente dos homens seu belíssimo recipiente de bebidas.

- O que é? Vai querer uma outra bebida? - pergunta o homem.

A caneca vazia, se deforma na mão de Uzin soltando-se como areia negra no ar e instantaneamente se estica materializando-se como uma lança que atravessa sem qualquer dificuldade o pescoço do líder em pé.

Os homens se assustam e dão um ágil recuo para trás deixando num salto suas cadeiras e puxam suas espadas da bainha.

Uzin puxa a lança do pescoço do homem e ela se deforma como areia negra no ar tornando-se instantaneamente uma espada de médio porte em sua mão.

Um dos oponentes com os olhos de espanto, age se impulsionando na direção de Uzin mirando a lâmina em seu ombro, Uzin ergue sua espada e desvia a lâmina do oponente e com um movimento rápido, gira a espada retornando-a em direção ao alvo passando a ponta da lâmina livremente em sua garganta.

Um outro homem no mesmo instante ergue sua espada e a desce em direção a Uzin que desmaterializa sua espada tomando logo o formato de uma circunferência em seu antebraço assumindo a estrutura de um escudo que intercepta o golpe desviando o curso da lâmina para o chão.

As enumeras transformações de armas nas mãos de Uzin se movem como um borrão de tão ágil emitindo um forte timbre de aço que zunia a cada movimento e batida.

Um quarto homem vêm pela sua retaguarda e o escudo se torna novamente uma lança segurada pelas duas mãos do combatente que com um leve giro de tronco leva sua ponta contra a perna do oponente o perfurando e atravessando a coxa fazendo-o se ajoelhar.

A lança se deforma na mão de Uzin novamente tomando o formato de uma pequena adaga da qual ele crava no crânio do homem ajoelhado .

O homem que outrora havia sido desviado pelo escudo, trêmulo, assustado e enfurecido, avança novamente com a ponta de sua lâmina contra Uzin que agora segura uma espada longa e desvia o ataque com o giro da espada ao redor do seu corpo e com outra mão, livre, segura e torce o braço do oponente o jogando contra uma mesa, derrubando-o e quebrando o móvel.

O homem caído sentado entre as tábuas quebradas ergue seu rosto e olha para ele dizendo:

- Então, você é Uzin Ezrum, o portador do querer!

- Onde estão as crianças da casa da floresta? - questiona firmemente Uzin parado diante do homem com a ponta da lâmina na lateral de seu pescoço. O homem, com um riso de surto, olhos saltados, responde com um grito vibrante:

- Isso, somente Bathalor sábera! Viva o senhor de todas as guerras!

Uzin ergue sua espada para o alto e a segura por um tempo até que ela se deforma e reforma-se e um machado de batalha de grande porte e o desce partindo o homem ao meio.

Ele puxa o machado segurando firmemente o cabo transformando-o em um dardo e vira-se em direção a porta o jogando com força atravessando a madeira próximo da maçaneta quando ouve um grito desesperador.

- Achou que eu não te perceberia, dono do quinto cavalo? - disse Uzin.

Caminhando até a porta e a abrindo, encontra preso um jovem, o quinto homem, com o dardo pregando seu antebraço na madeira e com um forte murro de lateral de mão fechada na nuca, ele desmaia o oponente que fica pendurado na porta.

Uzin retira o dardo e o finca no chão e amarra o último deles deixando-o jogado, desacordado e trancado no armário de vassouras no canto do bar da hospedaria, arrasta os demais corpos para fora pelos braços e pernas e os amarram com cordas em três dos cinco cavalos e com um tapa nas costas deles os espanta que correm desenfreados floresta a dentro arrastando os cadáveres.

Ao entrar na hospedaria novamente, nota a moça, Belizie e o velho, estáticos, espantados, trêmulos atrás do balcão, ele então fecha a porta deixando-os ainda mais apreensivos, anda até o balcão e joga um saco cheio de moedas em cima.

- Espero que isso possa compensar tudo que aconteceu aqui.

O senhor olha para o saco cheio de moedas e se surpreende com a quantidade, gaguejando ele responde:

- Sim, sim, é claro. Você, talvez, gostaria de mais alguma coisa?

Uzin estende sua mão, materializa novamente sua caneca metálica e da um sorriso.

...

Nenhum comentário:

Postar um comentário